Hoje, logo cedo, fui ao consultório do oftalmologista acompanhar o meu marido em uma consulta.
A propósito, antes de contar o que eu ia contar, devo mencionar que meu marido teve outro ligeiro descolamento da retina no mesmo olhinho esquerdo e, por causa disso, deverá fazer nova cirurgia ainda nesta semana. Nada grave, mas sabe como são essas coisas...
Mas aí acontece que nós estávamos na sala de espera, com aquela mocinha pingadora de colírio de dilatar a vista, toda de branco pra lá e pra cá, se equilibrando em seus sapatinhos de salto meio agulha, meio martelo sem cabeça, ou sei lá o nome do formato que se dá àquele saltinho infame.
Àquela hora da manhã eu fiquei imaginando como ela fazia para se equilibrar no ônibus com aquele salto. Se eu fosse homem, olharia aquela moça e ficaria imaginando outras coisas bem menos nobres, mais ancestrais. Mas eu não... eu fico imaginando coisas idiotas da vida dela que não me dizem respeito.
Até que ela era gostosinha... Aposto que tem namorado.
Ops, desviei do assunto de novo.
Quero contar outra coisa, mas fiquei divagando no famigerado saltinho da pingadora de colírio.
Ok, vamos lá: estávamos na sala de espera e entraram uma velhinha, uma moça-senhora e uma menininha-bebê. Deviam ser avó, mãe e neta.
Sentaram-se à nossa frente. A mocinha pingadeira de colírio de dilatar a vista veio toquitocando seu saltinho apressada, chamou "Dona Maria" e foi lá com suas gotinhas judiar da mulher.
Então ficamos esperando o momento certo de estarem todos devidamente ceguetas para o médico começar a chamar um por um.
A moça - não a pingadeira, mas a mãe da nenê - ia pra lá e pra cá, também com uma espécie de saltinho toquitoqueiro, só que esse era de executiva, mulher que pilota um cabelo, munida de celular importante e tocador. Falava, falava, dava ordens, discordava, desligava. O celular gritava de novo, ela se levantava e saía tocando o terror pra cima de seus pobres subordinados.
Entraram dois senhores nordestinos, cuja conversa eu não entendia patavinas porque eles falavam o dialeto baianês-arábe, que eu não tive ainda a oportunidade de estudar melhor.
De repente, um cheiro terrível no ar...
Pensei: esse simpático lindinho (leia-se pilha da futa) resolve sair de casa logo cedo pra vir peidar aqui no meio da gente!
Não, não era pum. Não se tratava de flatulência explícita.
A nenê é que tinha recheado direitinho suas fraldinhas da turma da Mônica.
Onde é que o Mauricio de Souza estava com a cabeça quando resolveu associar sua marca a dejetos infantis?
Bom, talvez o Mauricio de Souza tenha pensado mais nos milhões de fraldas que as criancinhas precisam usar durante um considerável período e nos royalties a receber do que propriamente no totô.
A Dona Maria velhinha não podia acudir a nenê cagadinha porque, como já se esperava, ela estava bem cegueta. Mas a meiga mãezinha tocadora de terror corporativo se ligou na missão e levou a criatura para a salinha de trocador, fazendo o que era certo fazer.
Ela voltou com a menina, cuti cuti fofinha, celular em uma das mãos, e a fraldona recheada empacotada e socada na outra mão.
Muta perda! Vai tomar uma coca cola! Aquele cheiro de bosque empestiou tudo de novo!
O cheiro reinava soberano e amarelo. Nada podia ser feito!
A mãe pilota de fralda guardou (isso mesmo!) - GUARDOU - o pacote do bolinho fecalzinho da nenê cuti cuti fofinha da mamis fófis gotosinha de meu Deus coimailinda dentro de sua bolsa crocodilo chiquésima!
A nenê, já de bumbum limpinho, sentiu um soninho e começou a pedir suas coisinhas: tetê, pepê, paninho...
E a cada pedido feito com tanta graça, a bolsa do mal absoluto se abria novamente para revelar seus mais fétidos humores...
Meu marido salvou-se logo. O médico chamou e ele adorou seguir para o exame.
Eu não, não havia escapatória: ali permaneci, a pagar meus pecados.
Ali, logo à minha frente, estavam três gerações de mulheres. Uma no pleno exercício de sua decadência celular, outra em pleno exercício de domínio do esfíncter retal e outra, entre essas duas, em pleno exercício de maternidade insalubre.
Até a mais pragmática das raposas felpudas do mundo corporativo é capaz de comer resto de papinha, beber finzinho de suco de laranja-lima e guardar fralda suja dentro da própria bolsa.
E afirmar, extasiada, óvulos pulando:
"Meu filho, meu mundo".